PSICOLOGIA: Bolonhesa
"Na prática, os alunos que chegam ao ensino superior nos seus 18 aninhos actuais (quer dizer, hiperprotegidos e desresponsabilizados) não têm, por regra, hábitos de trabalho, iniciativa e percepção de si mesmos como adultos."
No ensino universitário há pré-Bolonha e pós-Bolonha.
A evocação à simpática cidade de Bolonha faz-se aqui pela circunstância de ter servido de palco ao acordo que tem vindo a mudar nos últimos anos o panorama do ensino superior.
Para quem não sabe, as grandes consequências práticas desta mudança, para já, resumem-se ao encurtar dos cursos. As licenciaturas que eram de cinco anos em média (havia algumas de quatro e outras de seis anos), passaram genericamente a três anos.
Como entretanto se assumiu que alguns cursos não podiam conceder uma prática profissional autónoma em tão pouco tempo, decidiu-se que alguns cursos, poucos, teriam mestrados obrigatórios. Nestes casos, os cursos continuaram, pois, a ser de cinco anos, mas concedendo o grau académico superior: o mestrado.
Em rigor, a ideia não era de uma mera cosmética que permitisse que mais gente em menos tempo acedesse a mais graus académicos. A ideia era a de mudar a estrutura ou, como agora se diz a propósito e a despropósito, o paradigma do ensino superior, implicando um maior grau de envolvimento dos alunos e também dos professores.
Pretendia-se acabar com aquele sistema em que o ir às aulas é o ir ouvir um professor a debitar matéria que se tem de decorar para passar exames e inaugurar uma outra forma de interacção em que os professores pudessem guiar os estudantes nas suas pesquisas de conhecimento em áreas delimitadas através do acesso aos bancos de dados científicos.
Pretendia-se que os alunos levassem a sério o seu horário semanal de 40 horas de trabalho, algum do qual em aulas ou reuniões de trabalho com os docentes, e que os professores se disponibilizassem para motivar os estudantes, iniciando-os no trabalho científico, na investigação e supervisionando as práticas específicas de cada ramo de conhecimento. Em teoria, era óptimo. Mesmo. Na prática, os alunos que chegam ao ensino superior nos seus 18 aninhos actuais (quer dizer, hiperprotegidos e desresponsabilizados) não têm, por regra, hábitos de trabalho, iniciativa e percepção de si mesmos como adultos.
Na prática, os professores, em regra, são os mesmos, com as suas velhas sebentas, os seus hábitos arreigados de serem detentores de um conhecimento que não pode ser questionado, com frágeis níveis de envolvimento no tecido social, nas novas tecnologias, na comunidade científica internacional. Na prática, pós-Bolonha tem estado a ser mais bolonhesa, quer dizer, uma misturada barata em que se aproveita restos.
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